Experenciando uma Transição Saudável no Ingresso Universitário: Validação Semântica de uma Tecnologia Educacional
Experiencing a Healthy Transition When Entering University: Semantic Validation of an Educational Technology
Vivir una Transición Saludable al Ingresar a la Universidad: Validación Semántica de una Tecnología Educativa
Angellica Fernandes de Oliveira
Samira Reschetti Marcon
Marina Nolli Bittencourt
Moisés Kogien
Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Resumo
Objetivo: validar semanticamente uma tecnologia educacional de promoção da saúde mental de universitários ingressantes. Método: trata-se de um estudo metodológico. A tecnologia educacional foi construída no formato de cartilha, considerando os fundamentos da Teoria das Transições de Meleis e as competências emocionais da inteligência emocional propostas por Goleman. A validação foi realizada por 10 universitários ingressantes da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus Sinop, com o uso de instrumento específico. A validação semântica foi conduzida por meio do cálculo do Índice de Validade Semântica (IVS) e a confiabilidade, através do coeficiente de correlação intraclasse (ICC) e da consistência interna (Ômega de McDonald). Resultados: a cartilha foi considerada válida na primeira rodada (IVC-Total=0,8), com índices satisfatórios de confiabilidade (ICC >0,50) e consistência interna (>0,70). Conclusão: a tecnologia educacional apresentou evidências de validade semântica após avaliação do público-alvo, com fortes indicações de importância e pertinência para a utilização entre universitários ingressantes.
Palavras-chave: estudo de validação, tecnologia educacional, inteligência emocional, saúde mental, estudantes
Abstract
Objective: to semantically validate an educational technology for promoting mental health among incoming university students. Method: this is a methodological study. The educational technology was developed in the form of a booklet, considering the foundations of Meleis' Transitions Theory and the emotional competencies of emotional intelligence proposed by Goleman. The validation was performed by ten incoming university students from the Federal University of Mato Grosso (UFMT), Sinop campus, using a specific instrument. The semantic validation was conducted by calculating the Semantic Validity Index (IVS), reliability through the intraclass correlation coefficient (ICC), and internal consistency (McDonald's Omega). Results: the booklet was considered valid in the first round (IVC-Total=0.8), with satisfactory reliability (ICC>0.50) and internal consistency (>0.70) indices. Conclusion: the educational technology showed evidence of semantic validity after evaluation of the target audience, with strong indications of importance and relevance for use among incoming university students.
Keywords: validation study, educational technology, emotional intelligence, mental health, students
Resumen
Objetivo: validar semánticamente una tecnología educativa para promover la salud mental en estudiantes universitarios de nuevo ingreso. Método: se trata de un estudio metodológico. La tecnología educativa se construyó en forma de cuadernillo, considerando los fundamentos de la Teoría de Transiciones de Meleis y las habilidades emocionales de la inteligencia emocional propuestas por Goleman. La validación fue realizada por diez estudiantes universitarios de la Universidad Federal de Mato Grosso (UFMT), campus Sinop, utilizando un instrumento específico. La validación semántica se realizó mediante el cálculo del Índice de Validez Semántica (IVS), la confiabilidad a través del coeficiente de correlación intraclase (ICC) y la consistencia interna (Omega de McDonald's). Resultados: el cuadernillo fue considerado válido en la primera ronda (IVC-Total=0,8), con índices de confiabilidad (ICC >0,50) y consistencia interna (>0,70) satisfactorios. Conclusión: La tecnología educativa presentó evidencia de validez semántica luego de la evaluación del público objetivo, con fuertes indicios de importancia y relevancia para su uso entre estudiantes universitarios entrantes.
Palabras clave: estudio de validación, tecnología educacional, inteligencia emocional, salud mental, estudiantes
Introdução
O ingresso no ensino superior se constitui como um período de transição na vida do estudante, implicando na necessidade de adaptação a essa nova realidade. Nesse sentido, vivências anteriores podem impactar, positivamente ou negativamente, a relação com a universidade, interferindo nas expectativas e no comprometimento com a instituição (Barros & Peixoto, 2022) e, em alguns casos, contribuindo para o surgimento ou agravamento de condições de sofrimento mental.
Com isso, faz-se necessária a proposição de medidas para auxiliar os estudantes a desenvolverem novas formas de enfrentamento dos desafios presentes nesse contexto (Pinto et al., 2023) ao adentrarem no ambiente acadêmico. Fatores como rede de apoio, fornecimento de informações do ambiente universitário, integração acadêmica, características da instituição relativas à infraestrutura e integração social podem ser agentes facilitadores da adaptação no processo de transição para o ensino superior (Sahão & Kienen, 2021).
A passagem e a adaptação a esse novo ambiente, amparadas na Teoria das Transições de Afaf Meleis, de 1985, visam qualificar o cuidado (Meleis, 2010), que pode ocorrer por meio da criação e fortalecimento de projetos e programas de acompanhamento e do desenvolvimento de ações de promoção à saúde (Barros & Peixoto, 2022). Para tal, o investimento no aprimoramento das competências de inteligência emocional de universitários ingressantes se constitui como um importante aliado (Oliveira et al., 2024).
A inteligência emocional envolve competências importantes para o fortalecimento da saúde mental no ensino superior (Mohamed et al., 2022). O modelo de Inteligência Emocional (IE) proposto por Goleman (1995) está embasado no desenvolvimento de cinco competências: autoconsciência, empatia, autocontrole, automotivação e sociabilidade. Essas habilidades são fundamentais para enfrentar os desafios acadêmicos e pessoais durante essa fase de transição.
Como mecanismo para efetivar intervenções, as tecnologias educacionais (TE) podem ser recursos promissores para o aprimoramento das competências emocionais. Elas melhoram a eficiência dos processos de cuidado e elevam o nível de conhecimento e habilidades dos enfermeiros (Santos et al., 2024). Sua utilização promove formas diferenciadas de ensinar, gerando novos comportamentos nos profissionais de saúde e novas maneiras de produzir conhecimento (Sarinho et al., 2024).
Para garantir a efetividade e a legitimidade das TE, é fundamental que elas atendam às demandas do grupo ao qual se direcionam (Silva et al., 2022). Portanto, é necessário que o público-alvo seja incluído na avaliação e na validação das TE. A validação semântica é um meio pelo qual esse público avalia a compreensão de cada item do instrumento, evitando divergências quanto ao que o pesquisador pretende avaliar (Pasquali, 2010).
Em buscas na literatura, não foram encontrados estudos de validação de TE de promoção da saúde mental em universitários que vivem a transição da escola para o ensino superior, especialmente no que diz respeito à validação semântica, que envolve a participação do público-alvo. Assim, diante do potencial dessas tecnologias para promover a saúde mental e contribuir para o processo de adaptação, esse estudo está embasado na seguinte pergunta: uma cartilha que visa desenvolver e fortalecer a inteligência emocional é válida para a promoção da saúde mental de universitários ingressantes? O objetivo dessa pesquisa é validar semanticamente uma cartilha de promoção da saúde mental, já validada em seu conteúdo e aparência.
Método
Trata-se de estudo metodológico que testou a validação semântica de uma TE fundamentada na teoria das Transições de Afaf Meleis e nas competências da inteligência emocional de Daniel Goleman. A TE foi apresentada em formato de cartilha, intitulada “Experenciando uma transição saudável no ingresso universitário”. Essa validação semântica representa a última etapa de um projeto matricial denominado “Tecnologia educacional para promoção da saúde mental de universitários ingressantes”.
A coleta de dados para a validação semântica ocorreu no mês de junho de 2024, no município de Sinop-MT. Quanto à amostra, considerando a ausência de indicações claras na literatura sobre a quantidade necessária de juízes do público-alvo para a validação semântica, optou-se por seguir a quantidade mínima de seis juízes recomendada para a validação de conteúdo (Pasquali, 2010). Assim, participaram do estudo 10 universitários ingressantes selecionados por conveniência e recrutados na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus Sinop, por meio de convite durante as aulas, após autorização das coordenações de cursos.
Para serem incluídos no estudo, os universitários deveriam estar matriculados nas disciplinas do 1º semestre de qualquer curso da UFMT. Foram excluídos aqueles matriculados em disciplinas do 1º e 2º semestres de forma concomitante ou que tivessem transferência de outra universidade pública ou privada, bem como aqueles que já haviam cursado qualquer graduação anterior.
Na coleta de dados, a cartilha foi enviada para leitura e avaliação inicial, junto a um instrumento de validação semântica adaptado de Teixeira e Mota (2011). O objetivo desse instrumento era direcionar o julgamento do conteúdo do material, compreendendo duas partes: identificação do sujeito e instruções. A parte referente às instruções foi composta por cinco blocos subdivididos em itens: objetivos, estrutura e apresentação, estilo da escrita, aparência, motivação e comentários gerais e sugestões, com opções de respostas dispostas em escala tipo Likert.
O julgamento da cartilha foi realizado de acordo com a opção do instrumento que melhor representava a opinião do universitário sobre cada critério, atribuindo uma valoração de: (1) totalmente adequado; (2) adequado; (3) parcialmente adequado e (4) inadequado. Se o juiz atribuiu a algum item os escores 3 e/ou 4, este foi orientado a justificar sua escolha.
Para identificar a validade semântica, calculou-se o Índice de Validade Semântica (IVS) (Teixeira & Mota, 2011). Esse índice mede o grau de concordância entre os participantes para cada item do instrumento adaptado (IVS-I), para seus domínios (IVS-Domínio) e para o instrumento como um todo. O cálculo do IVS envolveu o somatório de concordância dos itens marcados como “adequados” (pontuação 1 e/ou 2), dividido pelo total de respostas:

O IVS total (IVS-T) foi obtido pela soma de todos os valores dividida pelo número de itens do instrumento. Neste estudo, o índice mínimo de concordância considerado foi de 70% (Teixeira & Mota, 2011).
Para a avaliação da confiabilidade das medidas da cartilha, foi utilizado o coeficiente de correlação intraclasse (ICC), uma das ferramentas estatísticas mais utilizadas para esse tipo de avaliação (Silva et al., 2016). Para tanto, foram utilizados como referência os valores >0,5 para confiabilidade ruim, entre 0,5 e 0,75 confiabilidade moderada, entre 0,75 e 0,9 boa confiabilidade e >0,90 excelente confiabilidade (Koo & Li, 2016). Para avaliar a consistência interna, foi utilizado o Ômega de McDonald (McNeish, 2018), considerando como ponto de corte aceitável valores >0,70 (Hayes & Coutts, 2020).
O estudo seguiu as recomendações da Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, que trata de pesquisas envolvendo seres humanos. O Comitê de Ética em Saúde da Universidade Federal de Mato Grosso avaliou e aprovou o estudo, fornecendo o parecer nº 5.599.127/2022 e o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética nº 60820222.1.0000.8124.
Resultados
Em relação às características dos participantes, nove se declararam do sexo feminino e um do sexo masculino, com idade média de 20,6 anos (desvio-padrão = 2,79). Quanto aos cursos de graduação em que estavam matriculados, três pertenciam ao curso de Enfermagem, três ao de Medicina Veterinária, três ao de Farmácia e um ao de Engenharia Agrícola e Ambiental.
Na validação semântica, realizou-se apenas uma rodada, na qual o IVS-T alcançou o valor de 0,80, indicando que a semântica da tecnologia educacional proposta foi considerada válida. Todos os 26 itens avaliados apresentaram IVS ≥70%, também considerados semanticamente validados. No que diz respeito aos domínios, o quesito “estrutura e apresentação” obteve o maior IVS (0,85) (Tabela 1).
Tabela 1
Índice de Validade de Conteúdo da Tecnologia Educacional, segundo o Público-Alvo. Cuiabá, MT, Brasil, 2024
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Item |
Concordância dos juízes |
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|---|---|---|---|
|
n (%) |
IVS-I |
IVS-Domínio |
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1 OBJETIVOS – Refere-se aos propósitos, metas ou fins que se deseja atingir com a utilização do manual |
0,76 |
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1.1 Atende aos objetivos dos universitários ingressantes |
90 |
0,90 |
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1.2 Ajuda a promover a saúde mental |
70 |
0,70 |
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|
1.3 Está adequado para ser usado por qualquer universitário ingressante |
70 |
0,70 |
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2 ESTRUTURA/APRESENTAÇÃO – Refere-se à forma de apresentar as orientações. Isto inclui sua organização geral, estrutura, estratégia de apresentação, coerência e formatação |
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2.1 A capa é atraente. Indica o conteúdo do material |
80 |
0,80 |
0,85 |
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2.2 O tamanho do título e do conteúdo nos tópicos está adequado |
90 |
0,90 |
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|
2.3 Os tópicos têm sequência |
80 |
0,80 |
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|
2.4 Há coerência entre as informações da capa, contracapa, sumário, agradecimento e /ou apresentação |
90 |
0,90 |
|
|
2.5 O material está apropriado |
90 |
0,90 |
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2.6 O número de páginas está adequado |
80 |
0,80 |
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2.7 Os temas retratam aspectos chave importantes |
90 |
0,90 |
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|
3 ESTILO DA ESCRITA – Refere-se à característica linguística, compreensão e estilo da escrita do material educativo apresentado |
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3.1 A escrita está em estilo adequado |
80 |
0,80 |
0,78 |
|
3.2 O texto é vívido e interessante. O tom é amigável |
80 |
0,80 |
|
|
3.3 O vocabulário é acessível |
80 |
0,80 |
|
|
3.4 Há associação do tema de cada sessão ao texto |
80 |
0,80 |
|
|
3.5 O texto está claro |
70 |
0,70 |
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|
3.6 O estilo da redação corresponde ao nível de conhecimento do público-alvo |
80 |
0,80 |
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|
4 APARÊNCIA – Refere-se à característica que avalia o grau de significação do material educativo apresentado |
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4.1 As páginas ou seções parecem organizadas |
80 |
0,80 |
0,80 |
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4.2 As ilustrações são simples – preferencialmente desenhos |
80 |
0,80 |
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|
4.3 As ilustrações servem para complementar os textos |
80 |
0,80 |
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|
4.4 As ilustrações estão expressivas e suficientes |
80 |
0,80 |
|
|
5 MOTIVAÇÃO – Refere-se à capacidade do material em causar algum impacto, motivação e/ou interesse, assim como ao grau de significação do material educativo apresentado |
|||
|
5.1 O material é apropriado para a idade, gênero e cultura |
80 |
0,80 |
0,78 |
|
5.2 O material apresenta lógica |
80 |
0,80 |
|
|
5.3 A interação é convidada pelos textos. Sugere ações |
80 |
0,80 |
|
|
5.4 O manual aborda os assuntos necessários para o universitário |
80 |
0,80 |
|
|
5.5 Promove mudança de comportamento e atitude |
70 |
0,70 |
|
|
5.6 O manual propõe ao universitário adquirir conhecimento sobre a inteligência emocional |
80 |
0,80 |
|
|
IVS-T |
0,80 |
||
No campo de comentários e sugestões, foi inserido apenas um elogio quanto ao conteúdo, estrutura e organização da cartilha (Figura 1).
Figura 1
Imagem da Capa e Página 3 da Cartilha “Experenciando uma Transição Saudável no Ingresso Universitário” Demonstrando Conteúdo, Estrutura e Organização


Na análise de confiabilidade dos domínios do instrumento de validação semântica, todos apresentaram ICC >0,50. Os domínios objetivos e estrutura apresentaram boa confiabilidade e os demais excelente confiabilidade. No geral, apresentaram um ICC de 0,837. Em relação à consistência interna, todos apresentaram valores acima do ponto de corte (>0,70) (Tabela 2).
Tabela 2
Análise de Confiabilidade e Consistência Interna dos Domínios Analisados no Instrumento de Validação Semântica. Cuiabá, MT, Brasil, 2024
|
Domínios |
ICC* |
IC95%** |
Ômega de McDonald |
Valor de p |
|
Objetivos |
0,762 |
0,478; 0,927 |
0,926 |
0,033 |
|
Estrutura |
0,831 |
0,669; 0,945 |
0,975 |
<0,001 |
|
Estilo da escrita |
0,926 |
0,838; 0,978 |
0,989 |
<0,001 |
|
Aparência |
0,968 |
0,920; 0,991 |
0,992 |
<0,001 |
|
Motivação |
0,919 |
0,823; 0,975 |
0,987 |
<0,001 |
|
Total |
0,837 |
0,702; 0,946 |
0,993 |
<0,001 |
Nota: *Índice de Correlação Intraclasse; **Intervalo de Confiança de 95%.
Discussão
Este estudo validou semanticamente uma TE em formato de cartilha, elaborada com base no referencial teórico da Teoria das Transições de Afaf Meleis e nas competências de inteligência emocional de Daniel Goleman. Foram apresentadas evidências positivas de confiabilidade e consistência interna.
Considerando que as TE são produtos construídos a partir da experiência e da pesquisa (Ribeiro et al., 2023), aliadas dos profissionais de saúde com foco na promoção, recuperação e cuidado em saúde (Amazonas et al., 2023), ao se identificar a confiabilidade da cartilha sob o olhar do público-alvo, pode-se disponibilizar um instrumento que estreita a relação entre o indivíduo e as práticas educacionais. Isso promove a construção de conhecimento para alterações de práticas e atitudes, com o potencial de contribuir para uma vida mais saudável (Freitas et al., 2024), além de fortalecer competências da inteligência emocional que permitem a promoção da saúde mental de universitários ingressantes.
Diferentes TE na área da saúde vêm sendo validadas semanticamente a fim de avaliar se são compreensíveis, relevantes e pertinentes para o público-alvo, como um aplicativo móvel utilizado no processo de interação e comunicação com a população durante a pandemia de covid-19 (Correia et al., 2023) e um guia educativo para gestantes em acompanhamento em uma unidade de Estratégia de Saúde da Família (ESF) (Freitas et al., 2024). Mais especificamente na área da saúde mental, uma cartilha sobre o cuidado em saúde mental na atenção primária (Bernieri et al., 2023) também foi produzida em formato de TE. Ressalta-se que tais tecnologias, independentemente da área, apresentaram índices de concordância entre o público-alvo de 75% a 100%, atestando sua validade semântica.
Na análise dos índices de validade semântica dos domínios aqui avaliados, os dados apontaram bons índices de concordância entre os juízes (IVS ≥ 70%), destacando-se os domínios de estrutura/apresentação e ilustrações, que tiveram valores ≥80%. Os achados corroboram a validação de uma TE elaborada em formato de folder educativo para coleta de escarro, que se destacou pela linguagem, ilustrações e layout adequados, com índices de concordância perfeitos (Silva et al., 2023).
Levando em consideração que os estudos de validação com o público-alvo contribuem para o aprimoramento do material por meio das sugestões dos participantes (Silva et al., 2022), embora tenha sido incluído no instrumento deste estudo um espaço para sugestões, houve apenas o registro de um elogio. Portanto, a avaliação positiva da TE e os valores satisfatórios obtidos nos índices investigados reforçam a coerência e a compreensão deste instrumento pelo público-alvo.
Outros indicadores podem contribuir para reafirmar a adequação da TE e permitir maior confiabilidade e credibilidade (Álvarez-Nieto et al., 2018), como o ICC utilizado neste estudo, que evidenciou resultados considerados de boa e excelente confiabilidade, com destaque para os domínios “Estilo da escrita”, “Aparência” e “Motivação”. Tais achados reafirmam a necessidade da utilização de linguagem de fácil entendimento para o público-alvo quando é construída a TE (Rodrigues et al., 2021).
A confiabilidade dos itens de uma TE também tem sido avaliada através da consistência interna (Silva et al., 2022), e o Ômega McDonald é umas das ferramentas mais indicadas para esse tipo de avaliação (McNeish, 2018). Neste estudo, com o cálculo do Ômega McDonald, todos os domínios se destacaram, apresentando uma boa consistência interna do instrumento para esse público-alvo, o que conferiu maior credibilidade ao processo de validação da tecnologia proposta.
Por fim, vale ressaltar que esse estudo não é isento de limitações, uma vez que os participantes que compuseram a amostra do estudo eram provenientes de uma única instituição de ensino superior, o que pode comprometer a abrangência dos resultados. Além disso, o fato de haver poucos estudos de validação semântica que avaliam a confiabilidade e a consistência interna dos instrumentos impossibilitou que houvesse uma discussão mais robusta das evidências apontadas neste estudo.
Porém, é importante salientar que as evidências de validação semântica desta tecnologia educativa proporcionam aos profissionais da saúde, em especial aos enfermeiros, uma ferramenta bem fundamentada e estruturada, com base no julgamento do público ao qual se destina, o que facilita a utilização futura na sua prática com vistas à promoção da saúde mental desses universitários.
Conclusão
A TE proposta apresentou evidências de validade semântica após avaliação do público-alvo, apresentando IVS= 0,80. Além disso, os índices de confiabilidade (ICC) (>0,50) e consistência interna (>0,70) atestam a sua importância e pertinência para a utilização entre universitários ingressantes, com vistas à promoção da saúde mental. A cartilha proposta, construída à luz de dois referenciais teóricos da área da enfermagem e psicologia, possibilita a compreensão da transição vivenciada pelo universitário ingressante na universidade e o aprimoramento das competências da inteligência emocional de modo prático, simples e acessível neste grupo populacional.
Considerando o possível adoecimento mental dos universitários decorrente das demandas acadêmicas somadas às questões pessoais, torna-se importante desenvolver novas tecnologias educacionais com o intuito de intervir nesse ambiente, levando a uma experiência acadêmica mais prazerosa e que forneça para o campo de trabalho, além de profissionais capacitados, pessoas emocionalmente mais competentes. Cabe aqui ressaltar que essa cartilha, já validada em conteúdo e aparência, está em fase de aplicação em um estudo experimental on-line. Posteriormente, pretende-se realizar nova aplicação presencial para avaliar sua eficácia.
Referências
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Sobre os autores:
Angellica Fernandes de Oliveira [autora para contato]: Doutoranda em Enfermagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Cuiabá, MT, Brasil. Enfermeira pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). E-mail: enfangellica@gmail.com, Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5552-6996
Samira Reschetti Marcon: Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Cuiabá, MT, Brasil. Enfermeira pela UFMT. Docente do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da UFMT. E-mail: samira.marcon@ufmt.br, Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5191-3331
Marina Nolli Bittencourt: Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Cuiabá, MT, Brasil. Enfermeira pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Docente do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da UFMT. E-mail: marinanolli@hotmail.com, Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1660-3418
Moisés Kogien: Doutorando em Enfermagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Cuiabá, MT, Brasil. Enfermeiro pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). E-mail: mkogien@yahoo.com.br, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4591-6648
Disponibilidade de dados
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Editor-chefe: Rodrigo Lopes Miranda
Editor de seção responsável pelo artigo: Alberto Mesaque Martins
Avaliadores: Raul Aragão Martins, Cely Carolyne Pontes Morcerf e Patrícia Martins de Freitas
Recebido em: 02/07/2024
Última revisão: 24/02/2025
Aceite final: 24/02/2025
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
doi: http://dx.doi.org/10.20435/pssa.v1i1.2931
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