A Personalidade Explica a Visão Otimista das Crianças Frente ao Futuro?
Does Personality Explain Children's Optimistic View of the Future?
¿La Personalidad Explica la Visión Optimista de los Niños Frente al Futuro?
Ana Karla Silva Soares
Renata Tereza dos Passos Costa
Elin Nogueira Santos
Laura Pires Ferreira
Ana Beatriz Oliveira Manvailer
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
Resumo
O otimismo é reconhecido por exercer um papel fundamental na experiência humana, contribuindo para níveis mais elevados de bem-estar, maior realização de metas e uma melhor condição de saúde. Apesar de questionamentos sobre expectativas futuras serem direcionados a crianças, são escassos na literatura estudos sobre essa temática com este público. Assim, o presente estudo busca avaliar o papel da personalidade na compreensão da visão otimista das crianças frente ao futuro. Participaram 406 crianças, com idade média de 10 anos (8 a 12 anos; DP = 1,10), a maioria do sexo feminino (56,3%), de escola pública (34,2%). Estes responderam à Escala de Perspectiva de Futuro Infantil, ao Questionário de Cinco Fatores para Crianças e a questões sociodemográficas. Os resultados indicam uma correlação positiva e significativa do otimismo frente ao futuro com agradabilidade (r = 0,30), conscienciosidade (r = 0,35), extroversão (r = 0,17) e abertura à mudança (r = 0,28), contudo, somente conscienciosidade (β = 0,27) e agradabilidade (β = 0,28) predizem a visão otimista das crianças [R² = 0,15]. Conclui-se que entender os traços de personalidade de crianças oferece insights sobre suas visões de futuro, que favorecem intervenções, orientando um crescimento mais saudável.
Palavras-chave: personalidade, otimismo, futuro, crianças.
Abstract
Optimism is recognized for playing a fundamental role in human experience, contributing to higher levels of well-being, greater goal achievement, and better health conditions. Although questions about future expectations are often directed at children, studies on this topic with this population are scarce in the literature. Thus, the present study seeks to evaluate the role of personality in understanding children's optimistic view of the future. A total of 406 children participated, with an average age of 10 years (8 to 12 years; SD = 1.10), most of them female (56.3%) and attending public schools (34.2%). They responded to the Children's Future Perspective Scale, the Five-Factor Questionnaire for Children, and sociodemographic questions. The results indicate a positive and significant correlation between optimism regarding the future and agreeableness (r = 0.30), conscientiousness (r = 0.35), extraversion (r = 0.17), and openness to change (r = 0.28). However, only conscientiousness (β = 0.27) and agreeableness (β = 0.28) predict children's optimistic view [R² = 0.15]. It is concluded that understanding children's personality traits offers insights into their views of the future, which favor interventions aimed at promoting healthier growth.
Keywords: personality, optimism, future, children.
Resumen
El optimismo es reconocido por desempeñar un papel fundamental en la experiencia humana, contribuyendo a niveles más altos de bienestar, mayor logro de metas y una mejor condición de salud. Aunque las preguntas sobre expectativas futuras se dirigen a menudo a los niños, son escasos los estudios sobre este tema en la literatura con este público. Así, el presente estudio busca evaluar el papel de la personalidad en la comprensión de la visión optimista de los niños sobre el futuro. Participaron 406 niños, con una edad promedio de 10 años (8 a 12 años; SD = 1,10), la mayoría del sexo femenino (56,3%) y provenientes de escuelas públicas (34,2%). Respondieron a la Escala de Perspectiva de Futuro Infantil, el Cuestionario de Cinco Factores para Niños y preguntas sociodemográficas. Los resultados indican una correlación positiva y significativa entre el optimismo frente al futuro y la amabilidad (r = 0,30), la conciencia (r = 0,35), la extroversión (r = 0,17) y la apertura al cambio (r = 0,28). Sin embargo, solo la conciencia (β = 0,27) y la amabilidad (β = 0,28) predicen la visión optimista de los niños [R² = 0,15]. Se concluye que entender los rasgos de personalidad de los niños ofrece información sobre sus visiones del futuro que favorecen intervenciones orientadas a un crecimiento más saludable.
Palabras clave: personalidad, optimismo, futuro, niños.
Introdução
A perspectiva do tempo é uma dimensão crucial na construção e na compreensão do tempo psicológico, influenciando como os indivíduos experimentam suas atividades ao longo do presente, do passado e do futuro. Pesquisadores reconhecem sua relevância no comportamento e na concepção de mundo dos indivíduos, destacando sua influência em diversos aspectos da vida humana (Wirth et al., 2024). Zimbardo e Boyd (2015) definem a perspectiva do tempo como uma representação cognitiva que envolve a visão psicológica integrada do passado e do futuro no presente.
A perspectiva de futuro, em particular, é considerada um fator central na regulação de comportamentos, emoções e motivações, visto que a tendência de ver o futuro como aberto está associada a maiores indicadores de afetos positivos, satisfação com a vida, senso de propósito e menores escores de afetos negativos (Diaconu-Gherasim et al., 2023; Katana et al., 2020; Rohr et al., 2017). No entanto, a literatura sobre a perspectiva de futuro em crianças ainda é escassa, assim como o estudo de um aspecto em particular: otimismo frente ao futuro.
Weinstein (1980) observou que jovens adultos tendem a ser excessivamente otimistas ao estimar as probabilidades de eventos futuros, acreditando que possuem maiores chances de experimentar resultados positivos e menores chances de vivenciar resultados negativos em comparação a outros indivíduos de mesma faixa etária e gênero. Fischer e Leitenberg (1986) corroboraram esses achados em um estudo com 583 crianças entre 9 e 13 anos, constatando que a maioria dos participantes apresentava visão bastante otimista em relação às suas expectativas de sucesso e fracasso pessoal.
Assim, tanto em adultos quanto em crianças, há uma tendência generalizada de manter uma visão otimista sobre o futuro, indicando que esse viés cognitivo está presente desde a infância. Nesta direção, pesquisas mais recentes têm se concentrado na maneira como as pessoas, especialmente em diferentes estágios do desenvolvimento, percebem o futuro e os fatores subjacentes a essa percepção (Yu et al., 2023).
Soares et al. (2018) avaliaram três dimensões: interesse por bens materiais, aspirações de constituir família e otimismo frente ao futuro. Esta última pode ser entendida como as expectativas positivas que as crianças possuem em relação ao que está por vir, abrangendo sucesso pessoal, segurança financeira e bem-estar emocional.
O otimismo, por sua vez, desempenha um papel essencial na experiência humana, promovendo níveis mais elevados de bem-estar, maior realização de metas e melhores condições de saúde (Wrosch & Scheier, 2003). Dessa forma, indivíduos com maior predisposição otimista tendem a interpretar desafios e circunstâncias adversas de maneira mais positiva, confiando que as situações podem melhorar com o tempo (Priya, 2023).
Crianças otimistas tendem a focar em resultados positivos e são mais resilientes ao enfrentar desafios, o que aumenta sua satisfação geral com a vida (Southwick et al., 2023). Estudos mostram que níveis mais altos de otimismo se correlacionam com a melhoria dos componentes cognitivos e afetivos do bem-estar subjetivo ao longo do tempo (Oriol & Miranda, 2024). No entanto, é importante considerar que nem todas as crianças desenvolvem otimismo da mesma forma, já há fatores como a dinâmica familiar e experiências individuais ou fatores psicológicos mais estáveis, como a personalidade (Soares et al., 2019).
A personalidade desempenha um papel fundamental na formação de uma perspectiva otimista sobre o futuro, com vários traços sendo associados a diferentes níveis de otimismo (Serrano et al., 2020). Para Erthal et al. (2021), indivíduos com altos níveis de otimismo tendem a prever resultados mais positivos e a minimizar a probabilidade de eventos negativos em sua vida futura. Essa disposição otimista é vinculada à ativação de áreas cerebrais específicas, como o córtex cingulado anterior e o giro frontal inferior, que estão envolvidas na imaginação do futuro e no processamento de informações autorreferenciais (Erthal et al., 2021).
As evidências de manifestação da personalidade desde a infância e sua relativa estabilidade ao longo da vida (por meio de padrões, em certa medida duradouros, de pensamentos, sentimentos e ações), bem como a sua capacidade preditiva em relação a resultados futuros (Schultz & Schultz, 2021), sugerem a possibilidade da variável auxiliar na compreensão da visão otimista das crianças frente ao seu futuro. Esses traços são vistos como fundamentais para a compreensão do desenvolvimento psicológico, sendo importante investigá-los desde a infância, em virtude das evidências de sua capacidade de predizer uma série de resultados sociais, emocionais e de saúde ao longo da vida adulta (Costa & McCrae, 1992).
No estudo de Bore et al. (2018), a personalidade mensurada em amostra de crianças é definida como um conjunto de traços relativamente estáveis que determinam como uma pessoa pensa, sente e se comporta ao longo do tempo e em diferentes situações. Esses traços estão organizados dentro de cinco dimensões principais, conhecidas como o modelo dos Cinco Grandes Fatores (Big Five [Costa & McCrae, 1992]), que são:
Essas dimensões refletem variações naturais entre os indivíduos, influenciando aspectos da vida, como a saúde mental, o bem-estar psicológico e até mesmo o desenvolvimento de percepções otimistas diante do futuro (Costa, 2024; Serrano et al., 2020). Nesta direção, embora seja comum que crianças sejam questionadas sobre suas expectativas para o futuro e suas aspirações de vida, a investigação científica sobre esse tópico é relativamente limitada. E diante do previamente exposto, o presente estudo busca avaliar o papel da personalidade na compreensão da visão otimista das crianças frente ao futuro.
Métodos
Participantes
Participaram do estudo 406 crianças, com idades entre 8 e 12 anos (M = 10,23; DP = 1,10), a maioria do sexo feminino (56,3%), de escola pública (62,19%) e que cursavam o quinto ano do ensino fundamental (38,58%). Tratou-se de amostra de conveniência (não probabilística), incluindo aqueles que, quando solicitados e cujos pais/responsáveis autorizaram a participação, concordaram em colaborar.
Instrumentos
Os participantes responderam a um conjunto de perguntas sobre a caracterização da amostra (idade, sexo, escola e série) e as seguintes medidas:
Escala de Perspectiva de Futuro Infantil (EPF-I): elaborada por Soares et al. (2018), a medida é constituída por 21 itens respondidos em uma escala de 5 pontos, variando de 1 (nenhuma importância) a 5 (máxima importância). A medida original é composta por três fatores (otimismo frente ao futuro; interesses por bens materiais; aspirações para constituir família), que apresentam, respectivamente, os seguintes indicadores de consistência interna: o alfa de Cronbach (α1 = 0,66; α2 = 0,70; α3 = 0,67), a homogeneidade (correlação média inter-i tens, F1 ri.i = 0,33; F2 ri.i = 0,36; F3 ri.i = 0,36) e a Confiabilidade Composta (CC1 = 0,65; CC2 =0,71; CC3 = 0,70 (Soares et al., 2018). Nesta pesquisa, empregou-se apenas a dimensão de otimismo frente ao futuro, que obteve os seguintes valores de consistência interna: alfa de Cronbach = 0,73 e Ômega de McDonalds = 0,75.
Questionário dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade – Infantil (BIG 5- I): esta medida é uma versão reduzida e adaptada proposta por Bore et al. (2018) e constituída por 20 itens distribuídos nos cinco fatores: Agradabilidade (A), Conscienciosidade (C), Neuroticismo (N), Extroversão (E) e Abertura a mudança (AB), derivados da versão original de 65 itens elaborada por Barbaranelli et al. (2003). A versão em português empregou a escala de resposta de cinco pontos utilizada na medida de 65 itens, variando de 1 (Quase nunca) a 5 (Quase sempre). Bore et al. (2018) identificaram indicadores de adequação psicométrica de natureza confirmatória (CFI = 0,94; TLI = 0,93; RSMEA = 0,05), com indicadores de consistência interna (alfa de Cronbach) de 0,74 (A), 0,78 (C) 0,70 (E), 0,81 (N) e 0,86 (AB). Nesta pesquisa, foram identificados os seguintes valores: E (α = 0,75; ω = 0,76), AB (α = 0,73; ω = 0,76), A (α = 0,60; ω = 0,62), N (α = 0,81; ω = 0,82) e C (α = 0,69; ω = 0,70).
Procedimentos
Após a obtenção da aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (Caae: 07691119.0.0000.0021), o trabalho foi realizado por meio da coleta de dados de forma presencial, depois do consentimento e da assinatura do termo de anuência (das instituições educacionais) e do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) por parte dos pais ou responsáveis pelos infantes. Assim, agendou-se o melhor horário para a aplicação do questionário, e a coleta de dados ocorreu em ambiente coletivo de sala de aula.
Participaram, de forma individual, os estudantes que assinaram o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (Tale), contendo informações sobre o caráter anônimo e voluntário da participação, bem como sobre a possibilidade de declinar a qualquer momento sem que isso acarretasse algum ônus para os voluntários. Em média, foram necessários 25 minutos para a conclusão da participação.
Análise de Dados
Para análise de dados, foi empregado o software JASP (versão 0.18.0.3) para proceder: as estatísticas descritivas (e.g., caracterização da amostra); a correlação r de Pearson (avaliar em medida e direção as variáveis se relacionam); o teste t Student (comparação de médias entre sexos); e a análise de regressão linear múltipla (stepwise; avaliar o papel preditivo dos traços de personalidade no otimismo frente ao futuro em crianças).
Para avaliar a normalidade dos dados, foi realizado o teste de Normalidade de Kolmorogov-Smirnov, cujos resultados [otimismo frente ao futuro – Shapiro-Wilk, W(406) = 0,87, p = 0,01; agradabilidade – Shapiro-Wilk, W(406) = 0,98, p = 0,01; conscienciosidade – Shapiro-Wilk, W(406) = 0,97, p = 0,01; neuroticismo – Shapiro-Wilk, W(406) = 0,96, p = 0,01; extroversão – Shapiro-Wilk, W(406) = 0,95, p = 0,01; abertura à mudança – Shapiro-Wilk, W(406) = 0,96, p = 0,01] identificaram ausência de normalidade, mas prevalência de valores satisfatórios nos indicadores de simetria (-1,18; -0,42; -0,64; -0,51; -0,63; -0,62; menor que 3) e curtose (1,11; -0,12; 0,30; -0,50; -0,35; 0,20; menor que 8-10) (Marôco, 2014). Deste modo, em virtude da dimensão da amostra (superior a 25-30) e pautado no Teorema do Limite Central, pode-se considerar que a distribuição da média amostral desta pesquisa apresenta dimensão razoável (N= 406) e se aproxima da distribuição normal (Marôco, 2014).
A fim de determinar o tamanho da amostra necessário para detectar uma correlação significativa entre as variáveis (personalidade e otimismo frente ao futuro), foi realizada uma análise de poder estatístico utilizando o software G*Power versão 3.1.9.7. A análise considerou um teste bicaudal (two-tailed) com um nível de significância α = 0.05, poder estatístico (1-β) de 0.95 e um tamanho de efeito esperado de 0,30.
O tamanho da amostra necessário para detectar uma correlação de Pearson com essas especificações foi estimado em 138 participantes. Para análise de teste t para amostras independentes, que considerou um teste bicaudal (two-tailed), com um nível de significância α = 0.05, poder estatístico (1-β) de 0.95 e um tamanho de efeito esperado de d = 0.50, estimaram-se grupos mínimos de 105 participantes.
Por fim, para análise de regressão (stepwise), consideraram-se um nível de significância α = 0.05, poder estatístico (1-β) de 0.95 e quatro preditores no modelo. O cálculo indicou que seria necessária uma amostra de 89 participantes para detectar um efeito de tamanho médio [tamanho de efeito f² = 0.15]. Diante da amostra empregada na pesquisa, estima-se que estes critérios tenham sido alcançados.
Resultados
Inicialmente, a fim de caracterizar a amostra em estudo, foram calculados os desvios-padrão e as médias para a amostra total e segmentada por sexo (masculino e feminino). Os resultados são apresentados na Tabela 1, onde se observa que, em todas as variáveis, as médias são relativamente semelhantes entre os grupos masculino e feminino. Destacam-se ligeiras diferenças em variáveis como neuroticismo e conscienciosidade, com os homens apresentando menores médias de neuroticismo e as mulheres apresentando médias ligeiramente maiores para a variável conscienciosidade.
Tabela 1
Estatísticas Descritivas das Variáveis
|
Variável |
Total |
M |
F |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
|
1. Otimismo |
4,18 (0,83) |
4,08 (0,86) |
4,23 (0,82) |
— |
|||||
|
2. Abertura |
3,91 (0,74) |
3,91 (0,73) |
3,88 (0,76) |
0,28* |
— |
||||
|
3. Agradabilidade |
3,54 (0,77) |
3,54 (0,77) |
3,50 (0,80) |
0,30* |
0,46* |
— |
|||
|
4. Conscienciosidade |
3,73 (0,73) |
3,67 (0,81) |
3,78 (0,75) |
0,35* |
0,45* |
0,39* |
— |
||
|
5. Neuroticismo |
3,45 (1,01) |
3,29 (1,03) |
3,58 (0,98) |
0,01 |
0,04 |
0,04 |
0,26* |
— |
|
|
6. Extroversão |
3,72 (0,87) |
3,68 (0,86) |
3,72 (0,88) |
0,17* |
0,48* |
0,34* |
0,23* |
-0,02 |
— |
Nota: Total (N = 406); M (masculino; N = 196); F (feminino; N = 128); * p < .05.
Foram realizados testes t de amostras independentes para investigar possíveis diferenças significativas entre os grupos (sexo), sendo identificada diferença estatisticamente significativa apenas na variável neuroticismo (t (385) = -2.81, p < 0,05), com os meninos apresentando escores significativamente mais baixos do que as meninas (Cohen's d = -0.29). Para as demais variáveis, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas (p > 0,05).
Em seguida, a fim de verificar em que medida e direção o otimismo se relaciona com os traços de personalidade (ver Tabela 1), procedeu-se uma correlação r de Pearson, cujos resultados identificaram que o otimismo apresentou correlações significativas e positivas com abertura (r = 0,28), agradabilidade (r = 0,30), conscienciosidade (r = 0,35) e extroversão (r = 0,17). Isso sugere que indivíduos com maiores níveis de otimismo tendem a relatar maiores níveis de abertura, agradabilidade, conscienciosidade e extroversão.
Posteriormente, decidiu-se testar em que medida o otimismo frente ao futuro é predito pelos traços de personalidade. Nesta direção, procedeu-se uma análise de regressão múltipla, considerando os traços de personalidade (fatores correlacionados significativamente: abertura, agradabilidade, conscienciosidade e extroversão) como variáveis preditoras do otimismo frente ao futuro, adotando o método de estimação stepwise, visto que o mesmo minimiza o efeito de multicolinearidade e seleciona objetivamente as variáveis, potencializando o poder preditivo e sendo mais parcimonioso na seleção do modelo, adequando-se à natureza exploratória do estudo (Hair et al., 2015).
Tabela 2
Regressão Linear Múltipla do Otimismo Frente ao Futuro (Personalidade com Preditora)
|
Variável |
R |
R²ajustado |
F |
B |
Beta β |
t |
VIF |
|
Conscienciosidade |
0,35 |
0,12 |
F(404)=55,75 |
0,31 |
0,27 |
5,44* |
1,18 |
|
Agradabilidade |
0,39 |
0,15 |
F(403)=15,81 |
0,21 |
0,20 |
3,98* |
1,18 |
Notas: *p< 0,05.
Os resultados da regressão indicaram que os traços de conscienciosidade e agradabilidade foram preditores significativos do otimismo frente ao futuro. A conscienciosidade foi a variável que apresentou o maior poder preditivo (β = 0,27, p < 0,05), explicando 12% da variância do otimismo (R² ajustado = 0,12). Em seguida, a agradabilidade contribuiu significativamente para o modelo (β = 0,20, p < 0,05), aumentando o poder explicativo para 15% da variância total (R² ajustado = 0,15). Esses achados sugerem que as crianças com níveis mais elevados de conscienciosidade e agradabilidade tendem a apresentar maiores níveis de otimismo frente ao futuro.
A Tabela 2 apresenta os coeficientes de regressão e os valores de significância para o modelo final. Ademais, os valores de Fator de Inflação de Variância (VIF) para ambos os preditores foram baixos (< 5 – baixa multicolinearidade), sugerindo que não há preocupação significativa com multicolinearidade no modelo.
Discussão
Este estudo teve como objetivo geral avaliar o papel dos traços de personalidade na visão otimista de crianças frente ao futuro, com base em uma amostra de infantes. Diante dos resultados observados, confia-se que o objetivo tenha sido alcançado. Especificamente, a personalidade tem um papel significativo na predição do otimismo frente ao futuro, sendo a conscienciosidade e a agradabilidade os traços mais fortemente associados a uma visão otimista do futuro. Estes achados são consistentes com a literatura existente, que destaca a relação entre traços de personalidade e perspectivas de vida tanto em crianças quanto em adultos (Bore et al., 2018; Costa & McCrae, 1992; Erthal et al., 2021; Wrosch & Scheier, 2003).
A análise de correlações identificou que o otimismo frente ao futuro se correlacionou significativamente com todos os traços de personalidade, exceto o neuroticismo. Assim, estima-se que a extroversão, caracterizada pela sociabilidade, assertividade e tendência a vivenciar emoções positivas, relaciona-se positivamente, pois indivíduos com alto índice de extroversão apresentam maior probabilidade de adotar estratégias de enfrentamento proativas, aumentando sua satisfação geral com a vida e, consequentemente, a perspectiva otimista (Marengo & Settanni, 2024).
Quanto aos resultados da análise de regressão múltipla, esses revelaram que a conscienciosidade e a agradabilidade são preditores significativos do otimismo, com a conscienciosidade desempenhando o papel mais relevante. Esses achados estão de acordo com a literatura existente, que destaca o papel central da conscienciosidade em comportamentos orientados para objetivos, além de sua importância no planejamento e na autorregulação (John & Srivastava, 1999; Gouveia et al., 2021).
O fato de a conscienciosidade explicar uma parte substancial da variância do otimismo sugere que crianças mais organizadas, disciplinadas e responsáveis tendem a ter uma visão mais otimista do futuro, possivelmente por serem mais capazes de identificar caminhos concretos para atingir metas e completar desafios. A agradabilidade também apresentou uma contribuição significativa para o otimismo, reforçando a ideia de que crianças mais compassivas, cooperativas e empáticas podem ser mais propensas a enxergar o futuro de forma positiva.
Estes achados podem estar relacionados à capacidade dessas crianças de construir relações sociais saudáveis e de se sentirem mais integradas e apoiadas em seus vínculos sociais, o que, por sua vez, pode promover uma visão mais esperançosa do futuro (Ashton & Lee, 2007; Gouveia et al., 2021).
Outro aspecto relevante é que, embora tenham sido encontradas diferenças significativas no traço de neuroticismo entre meninos e meninas, essa característica não apresentou correlações significativas com o otimismo no presente estudo, em comparação com os outros traços de personalidade. Este resultado permite estimar que, apesar de o neuroticismo estar tradicionalmente associado a uma visão mais negativa do futuro, indivíduos com altos níveis dessa característica tendem a perceber eventos da vida como mais estressantes e desafiadores (Busseri & Erb, 2024).
Assim, a influência do neuroticismo pode ser menos relevante no contexto de crianças ou, possivelmente, esse traço não se manifesta de forma tão clara nessa fase do desenvolvimento. Esse resultado aponta para a importância de investigar como o neuroticismo pode interagir com o otimismo em fases posteriores da vida ou em outros contextos específicos.
Conclusão
Os achados deste estudo sugerem que entender os traços de personalidade das crianças pode oferecer insights valiosos sobre suas visões de futuro e favorecer intervenções educacionais e de desenvolvimento que promovam um crescimento mais orientado e saudável desde cedo. Não obstante, apesar dos resultados encontrados, como todo empreendimento científico, o presente estudo não está isento de limitações.
Entre as potenciais limitações é possível citar o uso exclusivo de medidas de autorrelato (lápis e papel), que pode implicar em respostas enviesadas, uma vez que o respondente pode falsear suas respostas de maneira proposital, distanciando-se de seus reais comportamentos e valores (Soares et al., 2016). Além disso, o estudo foi transversal, limitando a capacidade de estabelecer causalidade entre traços de personalidade e otimismo. Futuros estudos longitudinais poderiam fornecer uma compreensão mais aprofundada sobre como esses traços se desenvolvem ao longo do tempo e afetam as perspectivas futuras das crianças.
Em termos de aplicações práticas, espera-se que os resultados desta pesquisa possam ser utilizados como subsídios teóricos para intervenções educativas focadas no desenvolvimento da conscienciosidade e da agradabilidade. Este aspecto pode auxiliar na promoção de um maior nível de otimismo nas crianças, o que, por sua vez, pode contribuir para resultados de vida mais positivos, como maior resiliência e bem-estar emocional (Southwick et al., 2023).
Estratégias que incentivem a empatia e a cooperação social, além do desenvolvimento de habilidades associadas à organização, autodisciplina e estabelecimento de metas, podem ser especialmente úteis. Futuros estudos devem explorar essas intervenções e avaliar seus impactos de longo prazo, além de investigar a interação de fatores ambientais, como o contexto familiar e escolar, na formação da visão otimista das crianças sobre o futuro.
Além disso, estratégias que incentivem a empatia e a cooperação social podem também contribuir para uma visão mais positiva do futuro, dada a importância da agradabilidade como preditora do otimismo. Ademais, estudos futuros poderiam se beneficiar do uso de métodos mistos, combinando abordagens quantitativas e qualitativas, como entrevistas e observações diretas, para aprofundar a compreensão sobre a relação entre traços de personalidade e otimismo infantil.
A inclusão de narrativas das próprias crianças pode fornecer perspectivas mais ricas e contextualizadas, permitindo identificar nuances que não são captadas exclusivamente por medidas de autorrelato. Dessa forma, abordagens metodológicas mais integradas podem contribuir para intervenções mais eficazes, alinhadas às necessidades individuais e contextuais do desenvolvimento infantil.
Referências
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Diaconu-Gherasim, L. R., Brumariu, L. E., Moore, M. T., & Kerns, K. A. (2023). School and career future time perspective and academic-related outcomes in early adolescence: Are mastery goals mediators? Educational Psychology, 43(2–3), 119–136. https://doi.org/10.1080/01443410.2022.2136361
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Sobre as autoras:
Ana Karla Silva Soares: Doutora, mestre e graduada em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Bolsista de Produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professora e pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Psicometria e Psicologia Social (NPPS). E-mail: karla.soares@ufms.br, Orcid: http://orcid.org/0000-0001-5306-4073
Renata Tereza dos Passos Costa: Mestra em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Especialista em Neuropsicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e especialista em Terapia Cognitiva e Comportamental pela Faculdade da Região Serrana (FARESE-ES). Graduada em Psicologia pela PUC-GO. Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Psicometria e Psicologia Social (NPPS/UFMS). E-mail: renatacostapsi@gmail.com, Orcid: http://orcid.org/0000-0002-7048-7382
Elin Nogueira Santos: Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Membro do Núcleo de Pesquisa em Psicometria e Psicologia Social (NPPS/UFMS). E-mail: n.elin@ufms.br, Orcid: http://orcid.org/0009-0002-5907-0970
Laura Pires Ferreira: Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Membro do Núcleo de Pesquisa em Psicometria e Psicologia Social (NPPS/UFMS). E-mail: laura.p.ferreira@ufms.br, Orcid: http://orcid.org/0009-0005-9593-9989
Ana Beatriz Oliveira Manvailer: Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Membro do Núcleo de Pesquisa em Psicometria e Psicologia Social (NPPS/UFMS). E-mail: anabeatrizmanvailer@gmail.com, Orcid: http://orcid.org/0000-0001-9935-4703
Disponibilidade de dados
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Editor-chefe: Rodrigo Lopes Miranda
Editor de seção responsável pelo artigo: Thiago Cavalcanti
Avaliadores: Olindina Fernandes da Silva Neta e Flávia Marcelly
Recebido em: 29/09/2024
Última revisão: 13/03/2025
Aceite final: 13/03/2025
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
doi: http://dx.doi.org/10.20435/pssa.v18i1.3024
Dossiê: Avanços e Desafios da Avaliação Psicológica